Tornando-se um Menino de Verdade - Marina Tschiptschin Francisco
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Tornando-se um Menino de Verdade
por Marina Tschiptschin Francisco

 

Oliver Sacks conviveu com seus pacientes, de uma maneira vibrante, sempre pessoalmente interessado e envolvido. Como resultado dessa forte empatia, presenteou-nos com obras tão estimulantes quanto “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu” e “Um Antropólogo em Marte”. Nessas obras, Oliver Sacks oferece seus vívidos testemunhos a respeito de excepcionais superdotados em determinadas áreas de suas personalidades.

 

Fala-nos, por exemplo, sobre pacientes da dramática síndrome de Gilles de la Tourette, que conseguem desempenhar-se admiravelmente como músicos ou cirurgiões. Conta-nos sobre autistas que se sobressaem por seus talentos artísticos, ou por seus dotes intelectuais.
Não é difícil a uma psicóloga, como eu, identificar-se com suas experiências, seus depoimentos e suas elucubrações, pois vários são os casos semelhantes que passam por nossas mãos, suscitando reflexões parecidas.

 

O caso de Roberto é um desses, tão estimulantes. Roberto surgiu no meu consultório, quando tinha 18 anos, com várias características pitorescas que sempre fizeram dele o centro das atenções, onde quer que ele estivesse.. Quando criança, exibia traços comportamentais tipicamente autistas, em paralelo a dons naturais brilhantes: facilidade para o desenho, memória enciclopédica, grande interesse por variados assuntos, e uma ansiedade em progredir e corresponder às expectativas em torno de si.

 

Roberto sempre contou com a boa vontade o esforço de seus pais.
Freqüentou escolas especializadas para crianças excepcionais, onde foram cultivados todos seus talentos e onde foram superadas muitas  de suas dificuldades. Chegou a se formar na Universidade, em Propaganda. Hoje em dia, com a idade de 33 anos, ilustra livros didáticos para uma escola de excepcionais, e continua vindo a suas sessões psicoterapêuticas comigo, uma vez por semana.

 

No passado, trabalhei com Roberto através de seus desenhos, área em que ele se expressa com muita adequação, humor e prazer.

 

Houve época em que a terapia de Roberto consistia num diálogo quadrinizado (v. “A Quadrinização do Diálogo Terapêutico”, de minha autoria, publicado em Psicologia, Ciência e Profissão, número 2, 1988, e apresentado no I Congresso do Conselho Nacional de Psicologia), em que nós dois conversávamos através de uma alternância de quadrinhos, dele e meus. Atualmente, embora nosso diálogo seja verbal, dentro de um enquadre analítico-holístico, às vezes Roberto desenha algo, para expressar de uma maneira mais vívida sua relação transferencial.

 

O trabalho terapêutico que ora tenho desenvolvido com ele corre ao longo de trilhos psicanalíticos e holísticos, sempre objetivando a “desrobotização” de suas falas e posturas, rumo a uma humanização com a qual, no fundo, Roberto muito se identifica.

 

Como se poderá ver, nos desenhos que se seguem, a maneira pela qual Roberto me modela, dentro de seu imaginário, expressa sua concepção da figura feminina tal qual ela tem se configurado ao longo de sua existência, nas projeções sobre tantas mulheres que lhe foram importantes, por variadas razões.

 

Geralmente, no começo da sessão, Roberto chega atrasado, esbaforido, atrapalhado, evidentemente perseguido, desculpando-se pelo atraso.
Isso não o impede de pedir licença para ir ao banheiro, onde permanece por cerca de 10 minutos. Deitando-se no divã, pouco à vontade, começa de novo a se desculpar pelo atraso, alegando toda sorte de obstáculos estereotipados (em seu repertório) que “não colam”. Sua expressão é formal, “engomada”, às vezes até literária, no estilo de autores do século XIX. A entonação tende a ser artificial, monótona, “enlatada” ou “robotizada”.

 

Há então uma ausência de qualquer emotividade espontânea. É quando ele me trata por “Dona Marina”, igualando-me a várias outras figuras femininas persecutórias de sua história.

 

Seguem-se dois desenhos expressivos desse momento transferencial, em que eu apareço como a “grande cobradora”, uma figura feminina castradora que lhe exige tudo, que não o perdoa, que o inibe, que lhe tira toda espontaneidade. Eis Maria Antonieta, bem antes de ser guilhotinada, em um flagrante de sua soberba, de sua intolerância.

 

Eis também Mary Stuart – Maria a Sanguinária, com toda sua propagada perversidade. É evidente que Maria Antonieta, Mary Stuart ou “Dona Marina” são nada mais que a expressão feminina de sua própria instância super-egóica persecutória.

 

 

Diante de tal megera, Roberto é extremamente “bem comportado”, o verdadeiro escoteiro (ver desenho acima), cheio de preceitos e ditados, desfiando normas e regulamentos, incapaz de admitir um erro, incapaz de se conceber falhando. Nesse contexto, uma falha qualquer lhe aparece como uma mancha indelével, e ele fica muito nervoso, tentando “apagar” a mancha com todas as forças de sua alma.
Nesse contexto, atos falhos (que nele são profusos, provenientes de um inconsciente muito rico e muito ativo) tendem a ser por ele rejeitados e tidos à conta de “erros”, “distrações” imperdoáveis.

 

Em seguida, após algumas interpretações bem-humoradas (Roberto tem bastante senso de humor e é receptivo às minhas gozações), ele acha graça, dá boas gargalhadas que trazem consigo um ar benvindo de um clima mais à vontade, e vai entrando numa sintonia diferente, comentando como está “sentindo um ventinho agradável” entrando dentro de sua cabeça, como está começando a ver uma cor prazerosa. É quando ele começa a “brincar” comigo, chamando-me afetuosamente de “Mary, Mary!” ou “Mary Quant” (ver desenho acima)

 

É claro, nesses desenhos, que a projeção sobre mim mudou da água para o vinho. De persecutória, minha figura tornou-se, ao contrário, maleável e brincalhona, a figura de uma menina inserida em contexto lendário ou brincalhão, em sua mini-saia (que eu de fato usava, na época da Mary Quant). Uma projeção, em suma, de sua instância infantil e brincalhona, à vontade.

 

É quando ele pode exibir seus ângulos até então reprimidos, censurados : seu sadismo, sua sexualidade, etc. É quando ele se permite examinar seus atos falhos, enxergando-os então como manifestações interessantes de seu inconsciente, e não como “erros”. É quando seu superego passa a se manifestar mais tolerante, tudo acolhendo com afetividade e bastante senso de humor. É quando, principalmente, seu imaginário se abre, desabrochando em visualizações de grande riqueza espontânea, reveladoras de um mundo interior rico em matizes emocionais inesperados.

 

Aparece o “menino de verdade”, Pinocchio merecedor de sua natureza humana graças ao ato de ter salvo seu pai das entranhas da baleia.
O pai renegado e resgatado é uma das temáticas fundamentais do psiquismo de Roberto, uma das chaves de sua humanização e chave-mestra de sua progressiva identificação masculina.

 

Resgatando o pai, Roberto se sente merecedor, e permite ser salvo de seu destino de boneco pela fada, que lhe devolve sua condição humana:

 

Mas, como o final nem sempre é totalmente feliz, podemos observar no desenho acima que a varinha de condão não tem o poder de devolver a humanidade toda ao nosso herói, pois a resolução de suas diferenças com o pai é relativamente lenta, como sempre o é, na vida real.

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