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 DANÇA PARA AUTISTAS
(publicado na revista Catharsis) por Marina Tschiptschin Francisco

Oliver Sacks nos descreve Temple Grandin, uma mulher com características autistas, mais especificamente portadora da síndrome de Asperger, cuja afetividade deslocada para o reino animal, fez com que ela muito se celebrizasse por sua empresa que fabrica produtos veterinários curiosos, destinados a minimizar o sofrimento do gado, ao abate.

A despeito desse deslocamento para os animais, Temple Grandin encontrou uma forma de expressar seu afeto pelos seres humanos, indiretamente, criando uma "máquina do abraço", cuja função é a de apertar a pessoa, restituindo-lhe segurança e energia.

Alguns autistas de alto rendimento, quando bem-sucedidos, em função de uma disposição genética menos comprometida e em função de condições ambientais mais favoráveis, também conseguem verdadeiras proezas ao longo da vida, como cursar uma universidade, desenhar e pintar com sucesso comercial, etc. Mas, sua marca autística é, em geral, detectável, pela falta de afeto real naquilo que transmitem no contato com as pessoas. Conseguir que o autista seja afetivo, tanto naquilo que recebe, quanto naquilo que dá, na relação interpessoal, é o maior objetivo. É com isso que tenho trabalhado, há algum tempo.

Como exemplo, tenho um paciente, Rodrigo, hoje com 36 anos - que contou com condições muito favoráveis, a vida inteira. Provavelmente, uma disposição genética mais favorável, uma mãe afetiva, escolas especializadas, muitos profissionais de qualidade, grande dedicação por parte de todos eles, um curso universitário completo, inserção no mercado de trabalho ( em ambiente semi-protegido). Entre seus talentos, uma memória fotográfica para todo tipo de fato ou informação, uma habilidade extraordinária para o desenho criativo, no sentido de ilustrar material didático, com vivacidade e senso de humor.

Mas, sempre lhe faltou a permissão interna para expressar sua verdadeira ligação com as pessoas, soando, com freqüência, "robotizado". Com a finalidade de liberar essa parte afetiva, tenho trabalhado de diversas formas com ele. Ora através da confecção conjunta de histórias em quadrinhos, ora através de pintura de aquarelas - em que as tintas "correm" pelo papel, e ele tem a oportunidade de "deixar acontecer", relaxando seus rígidos controles conscientes e dando espaço para o inconsciente. Ora através do relaxamento muscular, em que ele é convidado a trabalhar visualizações, de uma maneira criativa.

A parte mais importante, a meu ver, tem se desenrolado através da Dança Arquetípica, modalidade terapêutica de minha criação.

A seguir, descrevo o transcorrer de uma sessão típica de dança: ele chega, já vai escolhendo um CD, "para criar um clima", e, à sua maneira, vai configurando uma situação em que ele é o líder absoluto, exercendo aquela sua tendência autista de controle, em que o imprevisível é eliminado. Tudo pode ser previsto, é ele que vai "desenhando" a circunstância.

É aí que eu entro, sugerindo que fechemos os olhos e façamos uma visualização, dentro da qual nossas individualidades já contatuam, iniciando um processo de harmonização que tem o poder de dissolver sua onipotência e criar um espaço interindividual.

Logo após, iniciamos uma dança de harmonização, de olhos fechados e mãos dadas, em que já vai se instalando, devagar, uma dissolução de suas couraças defensivas. Dou a consigna para abrirmos os olhos, nos reconhecendo, e ele me olha por breves períodos tímidos, entrecortados por desvios de olhar, risos envergonhados, tentativas de encostar sua cabeça na minha, procurando uma esquiva ao contato do olhar. Estimulo-o a "descansar" no meu olhar, o que ele acaba fazendo.

Depois, ainda sempre ao som da música por ele escolhida (geralmente um CD New Age, com músicas entremeadas de sons da natureza), começamos uma dança espontânea a dois. Enfatizo, com ele, a necessidade de estarmos sempre, ou quase sempre, formando par, pois, se ele é deixado sozinho, tende a entrar em devaneio de caráter autista, fixando-se numa fantasia de que ele é uma figura mística que vai fazendo movimentos repetitivos, que eu chamo de "disco quebrado", e que até ele sabe que são autistas.

Ao formarmos par, estamos em constante troca de gestos e toques afetivos. Estimulo-o a, alternadamente, guiar e ser guiado por mim. À medida que se vai deixando ser guiado, tudo nele muda: suas feições, seu olhar, a qualidade de seu movimento, o calor de seu toque, o espaço que ele abre para mim, o silêncio interior que se instala na atmosfera da sala.

Às vezes, sugiro que entremos em uma música mais dinâmica, mais alegre ou mais agitada, mas ele insiste em continuar nesse diapasão, parece que ele tem sede dessa lentidão, dessa entrega ao poder oceânico do inconsciente. Diga-se de passagem, ele, em geral, tem muito medo do inconsciente - é freqüentemente vitimado por atos falhos e fica muito aborrecido com isso que ele chama de "êrros".

É muito gratificante vê-lo entregue ao inconsciente, todo afetivo e arredondado em seus comportamentos (muitas vezes secos e angulosos), com sua voz modulada por uma grande naturalidade, com seu ritmo interior suavizado. O que recebo energeticamente, nessas ocasiões, é difícil de descrever, por pertencer a um plano fenomenológico de uma ordem diferente. Em poucas palavras, trata-se de minha própria suavização interior, da dissolução do autista que carrego dentro de mim.

Essa transmutação qualitativa para um outro plano experiencial tem grande poder, e define uma sessão psicoterapêutica bem-sucedida, em que desaparecem as polaridades terapeuta-paciente, e passa a imperar uma terceira instância, pela qual somos movidos. É uma experiência Zen, de grande transcendentalidade.

Ao final de uma sessão deste tipo, à medida que vamos caminhando para o portão do consultório, acontece a confirmação de sua mudança interior. Em geral, na hora da despedida, Rodrigo, por se sentir prestes a ser abandonado, tende a voltar aos padrões autistas - torna-se inconveniente, insiste em que eu fique ouvindo relatos intermináveis sobre seus conhecimentos enciclopédicos, sem a mínima censura, sem atentar para o fato de que está se tornando "chato". Ao final de uma sessão de dança Arquetípica, entretanto, ele anda comigo até o portão em silêncio, despede-se afetuosamente com um beijo, e vai embora, levando consigo essa atmosfera afetiva e transcendente que ali foi criada.

É muito interessante observar que, de forma paradoxal, a generalização desse tipo de mobilização interna tem-se revelado especialmente no que diz respeito a sua individuação, na criação de seus próprios limites e propósitos: está, segundo relatos, muito mais auto-assertivo e independente, embora as barreiras interpessoais estejam tão mais tênues.
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